Técnica Individual - Art. 63

- Ataque.

- Exercícios para a Aprendizagem e o Aperfeiçoamento da Técnica Individual.

- Seqüência de Exercícios no. 11.

- Objetivos: aprendizagem das Combinações de Ataque.

Como vimos anteriormente e veremos muito mais em estratégias e táticas, a combinação de ataque é um meio de ataque que mobiliza dois ou mais jogadores na mesma ação ofensiva. Ou seja:

- uma ou duas bolas de tempo;

- uma bola de segundo tempo;

- uma bola "chutada" ou de segurança, na extremidade da rede mais distante do ponto da rede em que se realizam a primeira e a segunda bolas;

- uma ou duas bolas atacadas do fundo.

Apresentamos exercícios para a aprendizagem e o aperfeiçoamento, uma a uma, de todas as bolas componentes de uma combinação. Aspecto de grande importância para aperfeiçoar o ataque por meio de combinações é praticá-las exaustivamente em busca da perfeição, de modo coletivo. Isto é, criada a combinação apropriada, de acordo com as características dos atacantes da equipe, cada qual atacando a bola de sua especialidade, exercitá-las em sessões do treinamento técnico individual. Nesse treinamento é possível observar, de detidamente, os desempenhos individuais e o fator tempo, de extrema importância para a eficácia da combinação. Ou seja:

- o posicionamento de cada atacante no momento em que a bola está nas mãos do levantador (para fazer a aproximação final para o ataque), seja qual for sua atribuição (por exemplo, se atacante da bola de tempo, se é da segunda bola, se é da bola de segurança, se da bola do fundo);

- a velocidade da aproximação final, de cada qual, por ocasião do ataque;

- a qualidade do salto;

- a amplitude e a velocidade dos movimentos do tronco e dos braços;

- o ponto em que a bola é atacada;

- a decisão tática individual do atacante.

Todos esses fatores são inerentes à técnica individual e, portanto, fundamentais para o sucesso da ação coletiva. Vamos imaginar alguns casos;

1 - Caso um atacante atrase na chegada ao ponto ideal para realizar a aproximação final; comprometerá a execução da combinação.

2 - Caso faça a aproximação final sem a velocidade requerida; recebendo a bola, provavelmente atrasar-se-á para o ataque.

3 - Caso não faça um bom salto e/ou não realize os movimentos do tronco e dos braços com a amplitude e a velocidade requeridas; comprometerá o golpe na bola.

4 - Caso não golpeie a bola no ponto ideal; pode ter dificuldade para atacar a bola em determinados pontos da quadra adversária;

5 - Caso não tome uma decisão tática individual inteligente; pode não ser eficiente.

Enfim, todos os aspectos são igualmente importantes. Embora seja uma ação coletiva, a qualidade da execução técnica pelos jogadores influi no produto final.

93 - Os jogadores dispostos de acordo com a atribuição de cada qual, como está exemplificado no diagrama a seguir. Um atacante do primeiro tempo (1T), preparado para o ataque da bola de tempo Cabeça Frente; um do segundo tempo (2T), recepcionando o saque e depois atacando a Desmico da Cabeça Frente; um atacante da bola de segurança (BS). O treinador, dentro da zona de ataque da quadra oposta, atira a bola para o 2T passar para o levantador. No momento em que a bola chega nas mãos deste, todos os atacantes têm que estar preparados para fazerem a aproximação final para o ataque. O levantador distribui as bolas de modo aleatório ou de acordo com o que combinar com o treinador.

94 - Idem 93, com o treinador atirando as bolas do centro da quadra oposta.

95 - Idem 93, com o treinador/colaborador sacando para a recepção do T2.

96 - Todos os três jogadores posicionados nos pontos da rede em que fazem bloqueio. O treinador no centro da quadra em que está se realizando a combinação, lançando a bola para o levantador. Ao seu sinal, todos recuam da rede para os pontos em que fazem a aproximação para o ataque. O levantador distribui a bola de acordo com o que foi combinado com o treinador.

No diagrama a seguir, os jogadores nos posicionamentos para o bloqueio. As setas tracejadas representam suas movimentações. O levantador está posicionado na pos. 1. Quando o treinador lança a bola, ele desloca para a zona de levantamento (linha tracejada em azul claro).

 

 

97 - Idem 96, com o treinador lançando a bola para o levantador, atrás da linha de ataque. Os atacantes e o levantador (que já está na zona de levantamento) recuam e realizam a combinação.

Nota

Este último exercício é excelente para aperfeiçoar a execução da combinação. Todavia, é requerido aos atacantes e ao levantador alguns procedimentos e algumas habilidades, a saber: a trajetória da bola é mais longa e mais lenta, o que aumenta a probabilidade do atacante encontrar o bloqueio adversário mais bem postado. Por isso, é requerido aos atacantes um procedimento essencial: golpear a bola no ponto mais alto de sua trajetória, visando o fundo da quadra e os dois flancos.

O atacante da primeira bola, Cabeça Frente, recua de maneira tal que propicie um ângulo favorável para a passagem da bola. Nos diagramas a seguir, a comparação.

No 1, o atacante recua da rede como o faz para o ataque em que o levantamento é realizado na zona de ataque (situação ideal). Observe que a trajetória da bola (linha tracejada em vermelho) é praticamente perpendicular à rede. No caso, ocorrem duas situações complicadas: o atacante não tem boa visão do bloqueio adversário e da quadra oposta (recebe a bola quase que às suas costas).

No 2, ele recua abrindo para sua esquerda. O ângulo entre ele e o levantador é mais aberto. Com isso, a trajetória da bola torna-se mais favorável para total visualização do bloqueio adversário e da quadra oposta.

Em qualquer dos dois casos, são importantes os procedimentos do levantador e do atacante. O primeiro, deve imprimir velocidade máxima à trajetória da bola. O segundo tem que saltar no momento em que as bola chega nas mãos do levantador. É mínima a diferença de tempo entre o levantamento feito da zona de levantamento e do feito atrás da linha de ataque (como sugerido no exercício).

 

- Ataque - Técnica Individual - Conclusão.

 

1 - O ataque, como exaustivamente enfatizado, resulta de qualidades físicas, boa técnica individual, discernimento tático individual, entre outros fatores. A fim de aprender e/ou aperfeiçoar a técnica e, por conseguinte, tornar-se um atacante eficiente, é essencial que o atleta participe de um bom treinamento e, sobretudo, que tenha um bom aproveitamento no mesmo. O sucesso do treinamento técnico individual do ataque depende de uma série de fatores. Dentre os mais importantes, os focalizados a seguir.

a - Adequação - aprendizagem da técnica individual do ataque deve ser adequada à capacidade individual dos jogadores. Existem vários tipos de jogadores, por exemplo; os altos, os velozes; os espertos, etc... Cabe ao treinador identificar que qualidades cada qual tem, a fim de ensinar ou aperfeiçoar aquilo que é possível ser aprendido. O erro nesta avaliação pode redundar em frustração; do jogador e do próprio treinador.

b - Estratégia - o processo de aprendizagem deve ser muito bem pensado, muito bem planejado. Pode ser lento, mas tem que ser gradativo, ou seja passo a passo. Cito isto por um motivo. É muito comum o jogador, geralmente os iniciantes, querer atacar forte, ser um, como se diz na gíria do voleibol, um "porrador". Ele deve ser conscientizado de que a cortada forte resulta de uma série de fatores, tais como: boa técnica, boa impulsão, velocidade de movimentos, etc... Logo, o primeiro passo é o de aprender a técnica corretamente. De modo concomitante ele vai adquirindo melhor impulsão, mais velocidade, entre outras qualidades físicas. Resumindo, é necessário que o treinador estabeleça um planejamento de maneira que o jogador consiga atingir, paulatinamente, todos os seus objetivos.

c - Cooperação - no treinamento do ataque o treinador precisa contar com a cooperação de todos os jogadores, envolvidos no mesmo. Por exemplo, os que recepcionam, os que levantam os que bloqueiam, os que sacam, enfim, todos que de alguma maneira concorrem para o bom nível do treinamento. Esta componente vai ser colada em teste por ocasião das combinações de ataque. Vários componentes realizam uma ação tendo em vista um produto final: a conquista do ponto. Portanto, é extremamente importante que todos os jogadores se conscientizem de que um treinamento bom, de bom aproveitamento, etc, é aquele de bom nível técnico.

No caso do treinamento das combinações de ataque, todos os aspectos, mencionados no item 1, se encaixam. Os jogadores têm que ter capacidade - cada qual em uma especialidade - para que se crie a combinação eficaz; um deles que não se adeque, já constitui um fator limitante de eficácia. A estratégia deve ter em vista a harmonização de todos os componentes - inclusive dos levantadores e passadores - para que as qualidades/habilidades individuais seja somadas e decorram em um bom resultado final; o sucesso da ação ofensiva. A cooperação é facilmente verificada. Muitas vezes, um determinado parte para o ataque várias vezes e não recebe a bola. Ele deve ter em mente que seu esforço visa o sucesso da ação coletiva, e não o seu. Do contrário, ele se aborrece, passa a não cumprir sua atribuição e compromete toda a ação; e, conseqüentemente, seu time.

2 - Um dos aspectos fundamentais para a performance de uma atacante, é o "domínio" que ele tem do ponto em que a bola está para atacá-la. É muito comum o jogador deixar a bola baixar para goleá-la no seu topo e, com isso, atacar mais para baixo. Eles gostam, é "espetacular", a torcida vibra, etc, mas é contraproducente. No jogo propriamente dito, facilita o trabalho do bloqueio adversário. Na fator técnica individual, resulta em graves limitações. Ele mesmo fica com movimentos comprometidos para atacar outros todos os tipos de bola.

3 - Ainda que seja um trabalho técnico individual, o treinador tem que conscientizar seus jogadores de que estão exercitando uma habilidade que faz parte de um todo, isto é, da ação ofensiva. No momento do jogo propriamente dito, o sucesso dela decorre da eficiência de todo um sistema, ou seja: da recepção do saque, do levantamento e do grau de inteligência na concepção do ataque.

Para terminar gostaria de colocar um coisa. Existe a técnica individual universal. Milhares jogadores em todo o mundo a possuem. Um se notabilizam pela força, outros pela velocidade, outros pela habilidade, etc... Agora... tem os craques. O craque tem o dom. Nasce com o dom. Quando treinado vai longe, torna-se eficiente, tem todos os golpes, inventa, desequilibra, faz a diferença. O craque não se acha em qualquer esquina. Ele simplesmente aparece. Sua grande virtude é possuir uma série de qualidades físicas e técnicas, um alto grau de inteligência e, por tudo isso, autoconfiança inabalável.

Quando treinadores e companheiros têm a sorte de contar com um deles na sua equipe, devem aproveitá-lo ao máximo. O treinador deve estimulá-lo. Os companheiros, tê-lo como referência.

Para enriquecer o assunto, cito uma das conversas que tive com Benedito Silva, o Bené, notável treinador (falecido) que, na minha opinião - sabia enxergar, como ninguém, um verdadeiro craque.

Éramos adversários e disputamos campeonatos e mais campeonatos. Com ele aprendi o que universidade alguma ensina.

Quando nos encontrávamos, virou mexeu, vinha a "pilha":

- Sr Jorge, você só ensina seus jogadores a darem porrada na bola. Você tem que ensinar os seus a "brincarem com a menina". Os meus "brincam com a menina" (como denominava quem tinha habilidade com a bola).

Já na "pilha":

- Só os seus brincam com a menina, né?

- Claro! Eu gosto de ver jogadas "clássicas". Você só gosta de ver porrada!

- Quem é que te falou isso?

- Eu vejo, ora essa.

- Vê o que?

- Vejo você ensinar os seus a darem porrada.

- Tá maluco!

- Eu não. Você bota a molecada pra fazer ginástica, peso, essas merdas. Eu não quero saber dessas merdas. Eu quero é ver a molecada "brincar com a menina".

- Está enganado. Ensino tudo. Alguns aprendem, outros não. Você tem craques, vários craques. Eu não tenho tantos.

- Pera aí... eu procuro o craque. Só quero o craque. Tenho "olho clínico". Bato olho e digo, esse é craque, eu quero... só isso, senhor Jorge. Quero craque para botar no escrete - como chamava a seleção brasileira.

- Mas como você arranja tantos craques?

- Corro atrás. De manhã, passo na praia e fico olhando a molecada jogar bola. As duas da tarde, vou nas filas dos cinemas. Quando bato o olho num molecão alto, chamo e digo: terça-feira, duas horas no Fluminense... só isso. O Fernandão, por exemplo, peguei na torcida Jovem do Vasco, no Maracanã. Bernard, estava jogando basquete aqui no Fluminense, etc, etc, e ia contando como pegou, um a um, todos os jogadores que vieram a integrar a seleção brasileira.

- É... realmente... tenho que tirar o chapéu. Você realmente tem "olho clínico" e saber como arrebanhar os craques.

Calava minha boca, botava a "viola no saque" e saia de mansinho.

 

Bené notabilizou-se por ter formado, ao longo de sua longa carreira, vários e vários extraordinários craque, e os conduziu ao "escrete". Tinha uma característica marcante. Estivesse onde estivesse, e um jogador fizesse uma jogada de habilidade, incontinente vociferava: liiiiiinnnnnnnnnnda!!!. De fora, cá com meus botões, imaginava: é uma maneira de estimular seus jogadores a serem hábeis, versáteis, criativos; algumas das qualidades que os craques possuem.

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