Os jogadores da famosa Geração de Prata formavam um grupo de "malandros", no bom sentido. Aquele que bobeasse se ferrava. Logo, todos viviam ligados, espertos. As brincadeiras, pra não dizer sacanagens, eram prática comum; toda hora, todo dia.


Como vivíamos a maior parte de nossas vidas em treinamentos e viagens, havia certo desgaste entre os membros, logo era comum a falta de paciência de treinadores para com atletas; e com determinados atletas, então...

Tinham os mais brincalhões: Renan, Bernard, Willian, Montanaro. A impressão que se tinha era de que viviam pensando em algo para sacanear alguém; e que criatividade... Os mais “caxias” Bernardinho, Marcus Vinícius, Cacau, Leonídio participavam das brincadeiras, mas sem o intuito de sacanear ninguém. Os mais desligados: Amaury, Fernandão, Rui, Xandó, Badá, Domingos Maracanã “não tavam nem aí pra hora do Brasil”.


A disciplina era rígida, não podia ser quebrada de maneira alguma. Por causa disso, a brincadeira preferida era justamente fazer com que os companheiros entrassem em “roubadas” e levassem aquele bom e velho “esporro”. Um exemplo


O Major Paulo Sergio Rocha, preparador físico, pessoa extraordinária e muito querido de todos os atletas, tinha o hábito de fazer anúncios, nos inícios e finais treinamentos, antes e depois de jogos, antes e durante as viagens. Enfim, era preocupadíssimo com o bom andamento de tudo. Nesses anúncios a rapaziada tumultuava a fim de confundir as informações. Por exemplo, o Major dizia:


- Amanhã o despertar é as 7:00 h, o café às 7:30 h, o treino começa às 9:00 h. O uniforme para o treino é camisa azul.

Finalizava com voz empostada: estamos entendidos, alguma dúvida? Pronto, era a senha para as perguntas; das mais cretinas (no bom sentido).

- Major, não é melhor acordamos às 7:00 h em vez de 7:30 h? Não é melhor treinarmos com a camisa azul em vez da cinza?  Por que o treino não começa às 9:00 h?

Ou seja, sugeriam os mesmíssimos horários. O Major, conhecendo a turma, coçava a cabeça, sorria, repetia tudo em alto e bom som. De novo, mais das mesmas perguntas, até que o Major mandava também em alto e bom som:

- Vou repetir bando ignorantes (no sentido carinhoso). Despertar tal hora, café tal, etc...

Enfim, estava feita a pretendida confusão. Na última refeição, o jantar, os sacanas se despediam aumentando a confusão:

- Até manhã moçada, amanhã café às 8:00 h, treino às 8:00 h e camisa do treino cinza, etc.


Os mais desligados, se despediam como que pedindo uma confirmação do horário:

- Amanhã o treino é a que horas mesmo?

O sacana mandava, sem pestanejar:

- 9:00 h, camisa cinza.

No dia seguinte, aqueles não prestaram muita atenção, ou dormiam até mais tarde, ou se atrasavam para o treinamento, ou vinham com a camisa trocada, etc. Os sacanas eram os primeiros a chamar atenção dos treinadores para os vacilões, mas fingindo extrema preocupação com o companheiro. Dirigiam-se a um dos treinadores:


- Fulano ainda não desceu para o café, o que terá acontecido? Vai ver tá sem fome. Será que não vai ficar com fome no treino?!?! Não é melhor levarmos uma fruta para o treino?

Outro:

- Achei que a camisa fosse a azul, será que me enganei?

Pronto, aquela bronca, a vítima ficava puta e os sacanas morriam de dar risadas. E ainda iam pra trás do treinador e faziam aquele gesto "toc, toc, toc".


Resumo da ópera. Muita gente se atrasou para treinos, perdeu o ônibus, chegou atrasado em aeroporto, foi para jogo com cor de camisa trocada, e mais muitas e muitas confusões.


 

Outro exemplo era o da “morcegagem” no treino. Determinado exercício de bloqueio, por exemplo, era composto de 10 ações as quais os atletas tinha que executar com absoluta perfeição. Quem errasse alguma, tinha que repetir, uma, duas, quantas vezes fossem necessárias até que conseguisse. Enquanto um fazia, os outros tinham um artifício para descansar mais um pouquinho. Era o de ficar colocando defeitos na execução dos outros de modo que o companheiro repetisse, várias vezes, ainda que a execução fosse perfeita:


- Jorjão, ele não está estendendo os braços, tá certo assim? Tem que saltar mais, né? Acelera, cara, tá muito lento. Fez bem, mas podia ser melhor, etc.

Toca de repetir, repetir, repetir. O que repetia ficava irado e o resto da galera morria de dar gargalhadas. Pra variar, aquele gesto do toc,toc,toc.

 


 

Quando chegava alguém novo na Seleção, começavam as “pegadinhas”.


Um dos sacanas ia no quarto do novato e, como que não queria nada, dava algumas “dica”:


- Aqui na Seleção a disciplina é rigorosa, até exagerada. Faltar treino nem pensar, é cortado na mesma hora; apareceu com uniforme diferente, esporro; atrasou, “cara feia”, etc.  Bobeou se ferra.

Papo vai papo vem, vinha a conversa fiada.

 - Como é que você faz pra acordar na hora certa?

- Peço pra telefonista do hotel. Dou a hora e ela liga.

- Legal, vou fazer isso também. Sempre coloco meu relógio de pulso pra despertar, mas ele toca muito baixo e às vezes não escuto. Continuo dormindo, me atraso e, pra variar, levo aquele esporro. Mas como é que você faz isso?

- Só ligar e dizer a hora que quer acordar.

- Você pode ligar pra eu ver como faz?

- Claro.

Ligou, e deu a hora: 7:30 h.

- Pronto, amanhã 7:30 h ela liga, não tem erro.

- É.

Só que o sacana tinha combinado com um companheiro do quarto ao lado para chamar a vítima, para mostrar alguma coisa importante, por exemplo. O sacana ligava pra telefonista e dizia ter se enganado da hora. Pedia pra ser acordado às 8:30 h em vez de 7:30 h.


Quando a vítima chegava, atrasado, os sacanas se aproximavam do treinador, davam aquela olhada para o relógio, balançavam a cabeça como que dizendo, pó o cara chegou atrasado.

 

Em tempo:

As "Pegadinhas" não tinham o intuito de prejudicar ninguém, muito pelo contrário, refletiam o ambiente amistoso em que viviam atletas e treinadores. Quem era pego, esperava a chance da desforra... ninguém, absolutamente ninguém conseguir escapar de alguma. Algumas, infelizmente, não posso contar; fui vetado.

 

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