Crônica 47 - Vôlei de Praia... Socorro... a quem pedir?

O Vôlei de Praia do Brasil, diante dos acontecimentos largamente divulgados, corre sério risco de perder a hegemonia conquistada nas últimas décadas, e perder o "bonde" que o trouxe ao lugar de destaque que faz tempo ocupa e que pode levar à muitas outras conquistas. Hoje, lamentavelmente, o Projeto do Vôlei de Praia-Categorias de Base está sem recursos para prosseguir. Estou muito preocupado.

O Vôlei de Praia tem evoluído muito desde que a modalidade tornou-se um Desporto, ou seja, passou a ser disputada com as mesmas regras no mundo todo. Acredito que tem muito a evoluir. Portanto, não é mais possível trabalhar de qualquer maneira. É necessário pensarmos o Vôlei de Praia do Brasil, como todo, de modo estratégico, com vistas continuarmos ambicionando as medalhas nos principais campeonatos internacionais.

Apresento a seguir, um retrospecto do trabalho realizado nas Categorias Sub 19 e Sub 21 nos últimos três anos. A fim de contribuir com elementos importantes e chamar atenção para o grau de importância de um Planejamento Estratégico.

Nos Campeonatos Mundiais das Categorias Sub 19 e Sub 21, tanto no masculino quanto no feminino a evolução é flagrante. Nos últimos três anos participei com Supervisor Técnico das Seleções Brasileiras. Conseguimos compor uma Comissão Técnica extraordinária: Marco Antônio Albuquerque e Júlio Kunz (treinadores das equipes masculinas e femininas, respectivamente); Wallace Ramos, Marcello Cândido e Ronaldo Lucena (assistentes, masculino e feminino); Vitor Vieira e Rogério Fragata (preparadores físicos das equipes masculinas e femininas, respectivamente); Victor Hugo Torres e Flávio Ribeiro, Eduardo de Oliveira Ramos e Clemerson Ferreira (auxiliares de treinamento, masculino e feminino). Equipe comum ao masculino e feminino: João Paulo Saldanha (médico); Marco Antônio Serquiz e Vinícius Santos (fisioterapeutas); Paulo Roberto Gasparini (psicólogo); Érika Santinoni (nutricionista); Renato Luiz (estatístico).

No trabalho desenvolvido tivemos dois objetivos a serem alcançados.

1 - Captar atletas com potencial – características antropométricas e aptidão física e técnica - a ser desenvolvido tenho em vista seus aproveitamentos nas futuras competições internacionais, sobretudo Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos.

2 - Preparar Duplas - física, técnica e estrategicamente - a fim de atingirem os Níveis de Competitividade dos Campeonatos Mundiais. E, na medida do possível, conquistar as medalhas.

Ao iniciarmos o trabalho, em 2012, logo nos primeiros campeonatos das duas categorias, fiquei impressionado, mas impressionado mesmo com o nível técnico registrado. Fiquei impressionado com o número de países que está participando com elevados níveis de competitividade. Veja a realçao a seguir.

Países da Europa e suas Subdivisões

Europa Nórdica

Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia

Europa Central

Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Holanda, Itália, Reino Unido e Suíça

Península Ibérica

Espanha e Portugal

Leste Europeu

Azerbaidjão, Caszaquistão, Belorússia, Georgia, Eslováquia, Hungria, Polônia, República Theca, Romênia, Rússia, e Ucrânia

Península das Balcãs

Bósnia-Herzegóvina, Bulgária, Croácia, Eslovênia, Grécia, e Turquia (parte europeia)

Países Bálticos

Estônia, Letônia e Lituânia

 

Países das Américas e Oceania

 

Norte Canadá, Estados Unidos, México.
Sul Brasil, Argentina, Peru e Venezuela.
Central Cuba e Porto Rico.
Países da Oceania Austrália e Nova Zelândia.

 

Como se pode observar, relacionei mais de quarenta países; os países da África ainda não atingiram nível de competitividade sequer semelhante.
Em conversas com treinadores de diversos países, tive a informação que muitos estão desenvolvendo trabalho importante nas divisões de base. Muitos dos quais, possuem políticas saúde, educação e esportes e estão desenvolvendo o vôlei de praia nas escolas, como já fazem tradicionalmente em outras modalidades.

Outro fato importante é, diria, o ressurgimento dos países do bloco socialista, tais como Rússia e oito países das ex-Repúblicas Soviéticas, Alemanha (Ocidental e Oriental unificadas), Polônia, Bulgária, República Tcheca, Eslováquia. Todos com influência das disciplinas científicas altamente desenvolvidas, sobretudo pelas ex-Repúblicas Soviéticas e pela Alemanha Oriental.

Diante dessa evolução verificada já em 2012, ocasião em que nosso trabalho começou, constatamos que estávamos atrasados em relação a, sobretudo, Polônia, Alemanha, Rússia, no masculino e no feminino, e Suíça, no feminino. Em igualdade de condições com Estados Unidos, Canadá, Áustria, Austrália, no masculino, e Letônia, Lituânia, no feminino.

A partir de 2003, Ano II do nosso trabalho, passamos a trabalhar com vistas a diminuir a diferença de nível em relação aos países mencionados. Foram estabelecidos, sinteticamente, os seguintes Objetivos Específicos.

1 - Preparação Física - melhorar significativamente a impulsão tendo em vista obter alcance, no ataque e no bloqueio, semelhante ao Nível Verificado nos Campeonatos de 2012.

2 - Preparação Técnica Individual - melhorar a qualidade da execução de todos os fundamentos, sobretudo o Ataque e o Bloqueio, repetindo, nas alturas semelhantes às alcançadas pelos atletas europeus.

3 - Preparação Estratégica/Tática - investir firmemente no Sistema Ofensivo tendo em vista preparar nossos atletas para enfrentarem bloqueios de jogadores de elevadas estaturas.

Importante: o maior investimento feito pelas comissões técnicas foi justamente na aquisição do Discernimento Tático Individual em todas as funções do Vôlei de Praia. Entendemos e fizemos os atletas entenderem que não é mais possível treinar e atuar em níveis mais elevados como autômatos. Tínhamos que formular pensamento estratégico, esmiuçá-los, e coloca-los em pratica em cada bola em que tivéssemos contato.

Em 20013 as comissões técnicas adotaram o Método focalizado no artigo 25. Ou seja, partiu-se da Capacitação Técnica Individual para a Execução das Estratégias e Táticas, Ofensiva e Defensiva.

Já em 2014, adotaram o Método apresentado no artigo 26. Isto é, partiu-se da Construção das Estratégias e Táticas adequadas ao confronto contra times de elevadas estaturas e, concomitantemente, o desenvolvimento das Capacidades Técnicas, de modo individualizado, requeridas à execução das atribuições estabelecidas para as suas execuções.

Os objetivos foram alcançados. Nos anos 2012, 2013 e 2014, Brasil, com cinco títulos, e Polônia, com quatro, foram os maiores vencedores. Conquistaram quatro títulos cada qual.

Brasil - Sub 21, masculino, e Sub 19, feminino, em 2013, e Sub 19, masculino, Sub 19, feminino, Jogos Olímpicos da Juventude, feminino,em 2014.

Polônia: Sub 19 e Sub 21, ambos no masculino, em 2012, e Sub 21, feminino, em 2013, Sub 21, masculino, em 2014.

Conclusão. Na minha opinião, diante exposto, a tendência é de maior evolução ainda nos próximos anos. Partimos atrás em relação a muitos países. Nossa média de estatura sempre foi inferior às de muitos países em todo o mundo. Não temos política de saúde do povo, educação como em países mais desenvolvidos. Recuperamos a diferença, o trabalho realizado não pode ser interrompido. Sob pena de perdermos o "bonde".

O Brasil detém hegemonia no vôlei de praia internacional; isso é fato. Partimos, juntamente com os Estados Unidos bem na frente em relação a todos países do mundo. Isso é fato.

A questão a qual devemos nos debruçar é em relação às tendências. Creio que devemos elaborar Planejamento Estratégico consistente, desde a categoria Sub 17, e partirmos para sua Consolidação. De modo assegurarmos a formação de atletas e times altamente competitivos, não só para o Jogos Olímpicos de 2016, mas também nos próximos Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos.

 

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