Dicussão: a Capacidade Aeróbica é indispensável para o voleibol ou não?
por Jorge Barros [Jorjão]
Após a mudança da regra que estabeleceu o atual sistema de contagem (tipo tie-break), a duração do jogo diminuiu significativamente. Antes disso, não raro, tínhamos partidas com mais de quatro horas de duração. A atividade global - preparação física e preparação técnica-tática - girava em torno de até 8 horas diárias. Atualmente, com a diminuição destes período de tempo, o jogo é bem mais curto e, conseqüentemente, o treinamento global também. Os preparadores físicos e médicos fisiologistas, em virtude desta diminuição dos tempo e por outras razões, têm a opinião de que o treinamento aeróbico é dispensável. Eu refuto. Não tenho capacidade para discutir a questão com a mesma cientificidade. Argumento com a experiência reunida ao longo de minha carreira. A mais significativa, passo a relatar.
Em 1980, após a Olimpíada de Moscou, Bebeto de Freitas - atual Presidente do Botafogo de Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro - assumiu a direção da Seleção Brasileira de Voleibol Adulto Masculino. Fui convidado para ser um dos treinadores assistentes. Na primeira reunião que tivemos, para discutir as diretrizes do trabalho que iríamos realizar, fez uma importante declaração que, a meu ver, revolucionou o treinamento de voleibol, na própria Seleção e, em decorrência do que se passou a partir dela, de todo o voleibol brasileiro.
"Nestes meus tempos de jogador da Seleção Brasileira constatei que temos e sempre tivemos jogadores talentosos, que não ficam atrás aos de país nenhum em todo o mundo. Tivemos partidas e mais partidas em que jogávamos de igual para igual com nossos adversários. A partir de certo momento, no próprio jogo, nosso rendimento começava a cair e cair e cair. Os adversários, ao contrário, mantinham ou melhoravam os seus. Não dava outra; perdíamos os jogos. Sempre estivemos no mesmo nível em recepção, levantamento, ataque e defesa. Nunca "figuramos" no bloqueio e no condicionamento físico. Por isso, não vejo outra maneira de crescermos senão trabalhando muito, mas muito mesmo, nosso bloqueio e nosso condicionamento físico".
Foi o que se sucedeu. Ele formou uma comissão técnica com os três preparadores físicos, sob o comando do Major Paulo Sérgio Rocha, um médico fisiologista, Dr. Edmundo Novaes, e dois assistentes-técnicos, José Carlos Brunoro e eu. Estabeleceu que a globalidade do treinamento seria constituída por 70% com a preparação física e o treinamento do bloqueio.
Os jogadores foram submetidos à enorme bateria de testes; laboratoriais, cardiológicos, fisiológicos, de campo, enfim, uma sondagem profunda das aptidões e potenciais. Foram estabelecidas metas bem ambiciosas, para cada qual. A preparação física foi planejada - e efetivamente realizada - nos moldes dos treinamento de atletismo, tendo em vista a aquisição do condicionamento orgânico, e do treinamento para halterofilismo, para a aquisição da qualidade muscular. No treinamento técnico individual, como planejado, o bloqueio ocupava a maior parte do tempo destinado às preparações técnica/tática. O treinamento foi, na ocasião, considerado espartano, brutal, etc... pelos jogadores, por críticos, enfim, por todos que acompanharam ou tiveram notícia do mesmo. Os resultados não tardaram. Já no primeiro ano do trabalho, conquistamos a medalha de prata, no Campeonato Mundial Juvenil, e a medalha de bronze, na Copa do Mundo. A motivação aumentou, todos se convenceram de que estávamos no caminho certo e, conseqüentemente, o trabalho passou a fluir com extraordinária naturalidade.
O que gostaria de dizer com isso. O trabalho foi planejado para buscar níveis que não tínhamos. Estes níveis não foram inventados por nós. Eram o níveis que as principais equipes do mundo já se encontravam. Por exemplo, o de Capacidade Aeróbica era X, Anaeróbica Y, etc... O aproveitamento de bloqueio das equipes de ponta era tantos %. Estes níveis foram estabelecido como metas; nada, nadinha inventado. Como passarei a tratar das capacidades aeróbica/anaeróbica, preciso declarar que considero a capacidade aeróbica muito importante, sim.
Da mesma maneira que Bebeto de Freitas declarou que o rendimento caía no decorrer de um jogo, o mesmo ocorre no decorrer de um treinamento. É prática comum, em clubes e seleções, dois treinamentos diários, com média diária de 4/5 horas, hoje, e de 7/8 horas, naquela ocasião. O intervalo entre os mesmos é de cerca de 5 horas. O intervalo de um dia de treinamento para o outro é de, aproximadamente, 12 horas. Isso, sem falar nos intervalos entre um jogo e outro, nos Campeonatos Internacionais - têm jogos diários com intervalos, muitas vezes inferiores a 24 horas.
Concluindo, na minha opinião - baseado na minha experiência -, é necessária, sim, muita capacidade orgânica para suportar toda esta carga: para manter rendimento estável, na globalidade do treinamento e em todo o decorrer dos jogos; para obter boa recuperação entre um treinamento e outro, entre um dia e outro de treinamento e entre um jogo e outro nos campeonatos.
Durante muito tempo colocavam como argumento o fato de que as equipes do Estados Unidos, de Cuba, da Rússia, para citar apenas algumas, não treinavam a capacidade aeróbica. Ora, nestes países o indivíduo tem educação física na escola desde a primeira infância. Quando chegam à uma seleção nacional, já possuem as qualidades físicas básicas, ou seja, aquelas e naqueles níveis que tivemos que buscar. Aqui no Brasil, infelizmente, não temos educação física regular nas escolas. Muitas vezes os atletas chegam nas seleção de base - infanto-juvenil e juvenil - e principal em condições sub humanas, ou seja, com níveis baixímos de capacidade física, com saúde geral comprometida, etc, etc... - a Confederação Brasileira tem operado verdadeiros milagres na recuperação destes atletas e, daí, uma das razões do sucesso do voleibol brasileiro.
Ao focalizar as valências orgânicas aeróbica/anaeróbica, apresentarei o Treinamento Orgâncio Integrado (TOI), criado por mim, que considero meio altamente eficaz para o treinamento das mesmas. E... é possível que cause muita discussão. Recomendo o acompanhamento pelos profissionais de esporte - voleibol e outras modalidades - e, desde já, solicito suas contribuições, quer na crítica, quer em sugestões para aperfeiçoá-lo.
Acompanhe a Introdução ao Treinamento Orgânico Integrado (TOI).